domingo, 14 de abril de 2013

Respeito à Individualidade

Conversando com colegas professores, e, depois, com alunos e alunas, chamou-me atenção os resultados de opções coletivas que fazemos, seja como povo, seja como um pequeno grupo - de amigos...
Por isso compartilho a seguir o valioso texto de Rubem Alves.

Ganhei coragem
RUBEM ALVES

"Mesmo o mais corajoso entre nós só raramente tem coragem para aquilo que ele realmente conhece", observou Nietzsche. É o meu caso. Muitos pensamentos meus, eu guardei em segredo. Por medo. Albert Camus, leitor de Nietzsche, acrescentou um detalhe acerca da hora em que a coragem chega: "Só tardiamente ganhamos a coragem de assumir aquilo que sabemos". Tardiamente. Na velhice. Como estou velho, ganhei coragem.
Vou dizer aquilo sobre o que me calei: "O povo unido jamais será vencido", é disso que eu tenho medo.
Em tempos passados invocava-se o nome de Deus como fundamento da ordem política. Mas Deus foi exilado e o "povo" tomou o seu lugar: a democracia é o governo do povo... Não sei se foi bom negócio; o fato é que a vontade do povo, além de não ser confiável, é de uma imensa mediocridade. Basta ver os programas de TV que o povo prefere.
A Teologia da Libertação sacralizou o povo como instrumento de libertação histórica. Nada mais distante dos textos bíblicos. Na Bíblia, o povo e Deus andam sempre em direções opostas. Bastou que Moisés, líder, se distraísse na montanha para que o povo, na planície, se entregasse à adoração de um bezerro de ouro. Voltando das alturas, Moisés ficou tão furioso que quebrou as tábuas com os Dez Mandamentos.
E a história do profeta Oséias, homem apaixonado! Seu coração se derretia ao contemplar o rosto da mulher que amava! Mas ela tinha outras idéias. Amava a prostituição. Pulava de amante a amante enquanto o amor de Oséias pulava de perdão a perdão. Até que ela o abandonou... Passado muito tempo, Oséias perambulava solitário pelo mercado de escravos... E o que foi que viu? Viu a sua amada sendo vendida como escrava. Oséias não teve dúvidas. Comprou-a e disse: "Agora você será minha para sempre...". Pois o profeta transformou a sua desdita amorosa numa parábola do amor de Deus.
Deus era o amante apaixonado. O povo era a prostituta. Ele amava a prostituta, mas sabia que ela não era confiável. O povo preferia os falsos profetas aos verdadeiros, porque os falsos profetas lhe contavam mentiras. As mentiras são doces; a verdade é amarga.
Os políticos romanos sabiam que o povo se enrola com pão e circo. No tempo dos romanos, o circo eram os cristãos sendo devorados pelos leões. E como o povo gostava de ver o sangue e ouvir os gritos! As coisas mudaram. Os cristãos, de comida para os leões, se transformaram em donos do circo.
O circo cristão era diferente: judeus, bruxas e hereges sendo queimados em praças públicas. As praças ficavam apinhadas com o povo em festa, se alegrando com o cheiro de churrasco e os gritos. Reinhold Niebuhr, teólogo moral protestante, no seu livro "O Homem Moral e a Sociedade Imoral" observa que os indivíduos, isolados, têm consciência. São seres morais. Sentem-se "responsáveis" por aquilo que fazem. Mas, quando passam a pertencer a um grupo, a razão é silenciada pelas emoções coletivas.



Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo


Indivíduos que, isoladamente, são incapazes de fazer mal a uma borboleta, se incorporados a um grupo tornam-se capazes dos atos mais cruéis. Participam de linchamentos, são capazes de pôr fogo num índio adormecido e de jogar uma bomba no meio da torcida do time rival. Indivíduos são seres morais. Mas o povo não é moral. O povo é uma prostituta que se vende a preço baixo.
Seria maravilhoso se o povo agisse de forma racional, segundo a verdade e segundo os interesses da coletividade. É sobre esse pressuposto que se constrói o ideal da democracia.
Mas uma das características do povo é a facilidade com que ele é enganado. O povo é movido pelo poder das imagens, e não pelo poder da razão. Quem decide as eleições e a democracia são os produtores de imagens. Os votos, nas eleições, dizem quem é o artista que produz as imagens mais sedutoras. O povo não pensa. Somente os indivíduos pensam. Mas o povo detesta os indivíduos que se recusam a ser assimilados à coletividade. Uma coisa é o ideal democrático, que eu amo. Outra coisa são as práticas de engano pelas quais o povo é seduzido. O povo é a massa de manobra sobre a qual os espertos trabalham.
Nem Freud, nem Nietzsche e nem Jesus Cristo confiavam no povo. Jesus foi crucificado pelo voto popular, que elegeu Barrabás. Durante a revolução cultural, na China de Mao-Tse-Tung, o povo queimava violinos em nome da verdade proletária. Não sei que outras coisas o povo é capaz de queimar.
O nazismo era um movimento popular. O povo alemão amava o Führer.
O povo, unido, jamais será vencido!
Tenho vários gostos que não são populares. Alguns já me acusaram de gostos aristocráticos... Mas, que posso fazer? Gosto de Bach, de Brahms, de Fernando Pessoa, de Nietzsche, de Saramago, de silêncio; não gosto de churrasco, não gosto de rock, não gosto de música sertaneja, não gosto de futebol. Tenho medo de que, num eventual triunfo do gosto do povo, eu venha a ser obrigado a queimar os meus gostos e a engolir sapos e a brincar de "boca-de-forno", à semelhança do que aconteceu na China.
De vez em quando, raramente, o povo fica bonito. Mas, para que esse acontecimento raro aconteça, é preciso que um poeta entoe uma canção e o povo escute: "Caminhando e cantando e seguindo a canção...". Isso é tarefa para os artistas e educadores. O povo que amo não é uma realidade, é uma esperança.


Rubem Alves, 68, psicanalista e escritor, é professor emérito da Unicamp, autor de, entre outras obras, "A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir" (Papirus).

Site: www.rubemalves.com.br


Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz0505200208.htm


Lembre-se de citar a referencia ao utilizar o texto integral ou parcialmente.



quinta-feira, 11 de abril de 2013

Vida Nova na Páscoa

Muitos já me perguntaram o que é Vida Nova... Não há uma única resposta. Certamente, em diversos tempos temos respostas e, de modo individual chegamos a elas. O primeiro passo é a pergunta.

Assim, com a pergunta elaborada, pode-se pensar em respostas...
Vida Nova é suprimir o orgulho e, em seu lugar, deixar o perdão surgir.
Vida Nova é erradicar a inveja, dando lugar à cooperação.
Vida Nova é acabar com o ódio e deixar o amor florescer.

"Se o grão de trigo não morrer debaixo da terra, não haverá espiga." Não haverá pão.
Vida nova é transformação.

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Artes e opção religiosa

Para as crianças este é um tempo muito rico. Elas ainda estão empolgadas com a escola, pelo menos, é o que se espera. Em meio aos desestímulos e apelos que o extra-escolar oferece há que se oferecer muitas alternativas atrativas para que o ensino-aprendizagem seja plenamente satisfatório. Assim, oferecer alternativas de atividades diversificadas no Ensino Fundamental, que geram uma interdisciplinaridade é uma opção sábia.
O modelo abaixo foi trabalhado de 2008 a 2011 em três escolas da Rede Municipal de Ensino de Arroio do Meio - RS, envolvendo as disciplinas de Ensino Religioso, Língua Portuguesa e Língua Inglesa, com crianças do 5º ano, antiga 4ª série.

Imagem in: www.abcteach.com - 2003.


domingo, 31 de março de 2013

As perguntas

Eu sempre soube que as perguntas são o primeiro passo para obter uma resposta. Creio que isso já está no interior do ser humano. Assim, sempre gostei de elaborar perguntas. Confesso que a resposta nem sempre foi favorável às expectativas juvenis... E não havia qualquer conotação de malícia ou astúcia nelas, nas perguntas. As respostas me surpreendiam e muitas delas me desanimavam.

Hoje fiquei me perguntando quais são os elementos em minha casa produzidos por mim. É a dúvida da criatura. E fiquei comparando os objetos de cá com os objetos de lá, de minha infância. Lembrei dos cascalhos no leito do arroio de nossa propriedade. E, entre eles havia muitas outras pedras, de outros tipos, sem valor comercial. Havia algumas rochas que só recebiam água e sombra, porém não eram escorregadias, isto é, não continham qualquer tipo de limo. Eu as escalava com muita destreza.

Fiquei pensando nas perguntas que eu tinha em minha infância e comparando-as com aquelas que insistem em surgir hoje. Penso que as perguntas já estavam lá, igualmente, mas não estavam verbalizadas no contexto apropriado para surgirem. Fiquei comparando as perguntas que fiz quando levantaram um muro de pedras naturais para conter um desbarrancamento à beira de um riozinho que enche muito rápido, longo, caudaloso, profundo. Olhando as imagens com a nitidez possível em antena interna, canal público, surpreendi-me comparando aquelas pedras com as pedras que conheci, há kilômetros e décadas de distância.

Na época de minha infância jamais pensaria em fazer barreiras de pedras para conter algum avanço de terra, que ocorria em proporções mínimas, de 1.000 por 1, quando alguma chuva mais forte ocorria. Não entendo realmente de engenharia, mas qualquer um poderia ver que aquele muro de contenção não suportaria 1 m² de terra úmida ou lama, como dizem aqui. Homens fortes, com máquinas potentes, homens importantes, com diplomas nas paredes ganham dinheiro para fazer coisas certas e tomar medidas protetoras.

E eu, como minhas perguntas e com minhas respostas não vejo certezas nem proteção. Jamais deixarei de fazer perguntas. E as respostas não estão nas estrelas, nem dentro de ninguém, nem qualquer uma dessas teorias gigantescas que vendem livros de páginas que ficarão amareladas pelo tempo. Perguntas e respostas, não apenas minhas, mas de uma geração, estão no universo líquido, à espera de quem as formule e comprove.

Sobre o Papel da ICAR a partir dos últimos acontecimentos

Considerei interessante a reflexão, e reproduzo neste espaço. Cada pessoa tenha liberdade de considerar por si mesma o valor ou o desvalor desta panorâmica nos oferecida por Nizan Guanae.
Agradeço a vocês, leitores, leitoras, por consultarem este blog. Caso queiram reproduzir seu conteúdo, citem a referência. É simples. É honesto. E nos dignifica como seres humanos, cidadãos neste mundo.

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Nizan Guanaes publicitário baiano, é dono do maior grupo publicitário do país, o ABC. Escreve às terças-feiras, a cada duas semanas, no caderno 'Mercado'.

Foto: by epocanegocios.globo.com

Folha de SP - 20/03/2013 


 
Francisco
Que coisa mágica é a vida. Estava eu chegando a Buenos Aires na semana passada para uma reunião de trabalho e jamais poderia imaginar que estivesse ali naquele dia para presenciar a mão do Espírito Santo e da história.

Saí do Aeroparque, o belo aeroporto ribeirinho da capital argentina, e fui até o meu hotel trocar de roupa antes de minha reunião. Liguei a televisão e, para a minha surpresa, o papa já havia sido escolhido.

Durante a próxima hora, eu e o mundo esperamos para ver que novo papa a fumaça branca nos traria. E eis que ele chegou. Surpreendente como a vida. Um argentino. E eu em Buenos Aires.

Começava ali uma aula de comunicação para o mundo que resume e mostra de maneira instintiva tudo o que os teóricos enchem a paciência e perdem um tempo enorme para explicar: a comunicação de 360 graus.

O cardeal Jorge Mario Bergoglio mostrou sem PowerPoint nem lero-lero como uma palavra pode mudar tudo, como um nome pode ser capaz de transmitir para o mundo todo uma mensagem tão poderosa e precisa.

A palavra é Francisco.

Francisco é uma palavra rica de significados num mundo pobre de significado.

Francisco quer dizer coma moderadamente num mundo obeso. Francisco quer dizer beba com alegria num mundo que enfia a cara no poste. Francisco quer dizer consumo responsável em sociedades de governos e consumidores endividados. Francisco quer dizer o uso responsável do irmão ar, do irmão mar, do irmão vento e de todas as riquezas debaixo do irmão Sol e da irmã Lua.

Francisco é um freio de arrumação não só na Igreja Católica Apostólica Romana, mas na sociedade a quem ela deve guiar. Em 24 horas, Bergoglio pegou uma instituição que estava emparedada e a tirou da parede, transportou-a dos intramuros do Vaticano para o meio da rua, para o meio do rebanho.

Comunicar é o papel da igreja. Para isso, foram escritos o Velho Testamento e o Novo Testamento, e Jesus não deixa dúvida quando disse aos apóstolos: "Ide e anunciai o Evangelho". Ide, ao contrário do que faz a gorda Cúria Romana, quer dizer ir, não quer dizer ficar em Roma. Quer dizer ir e anunciar.

E anunciar hoje é muito mais do que o comercial de 30 segundos. Anunciar hoje é usar todas as ferramentas disponíveis, todos os pontos de contato com seu público. Papa Francisco sabe disso muito bem.

Tanto sabe que muito antes de se apresentar ao mundo na sacada do Vaticano baixou um Steve Jobs nele, e, quando o monsenhor veio lhe oferecer uma veste toda rebuscada, Francisco Jobs retrucou: Se o senhor quiser, pode vesti-la, monsenhor, eu, não. O carnaval acabou.

É digno de reparo que Francisco não fez pesquisas nem testes antes de criar tudo isso. Não precisava. Foi buscar sua mensagem no DNA da igreja. E está escrevendo certo por linhas tortas.

Mesmo as coisas conservadoras que têm dito, coisas com as quais eu pessoalmente não concordo, são muito relevantes. A igreja não pode querer agradar a todo mundo. Ela tem que marcar territórios e significar coisas, e, ao fazê-lo, naturalmente exclui almas de seu rebanho.

Marca, design, conduta, relações públicas, endomarketing, alinhamento interno: "habemus papam".

Francisco se utilizou de todos os recursos do marketing para passar sua mensagem rapidamente, com alto impacto e precisão, para
o público interno e para o público externo.

Parece até que o 3G Capital assumiu o comando da igreja. Choque de gestão, orçamento base zero, alinhamento com a cultura perdida, volta às raízes, fé no trabalho, administração franciscana e disciplina de jesuíta de santo Inácio e professor Falconi.

Paradoxalmente, Francisco hoje acredita numa gestão mais parecida com Lutero do que com a tradição romana. Mas a igreja só teve que se enfrentar com Lutero porque ao longo do tempo se esqueceu da palavra Francisco.